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A alquimia de RespirAR

Categories: Reflexões

A respiração deveria ocupar um lugar privilegiado nas práticas destinadas à espiritualização. Ela amplia e aprofunda a consciência e ajuda a desenvolver altas virtudes pessoais. Segundo Buda o caminho mais seguro e simples para a iluminação é a constante consciência respiratória. Infelizmente, para a maioria de nós ela é apenas mais uma função vegetativa de nosso corpo. Nas últimas décadas surgiram diversas terapias psicossomáticas, como o renascimento, que demonstram a eficiência da respiração consciente.

Respirar é um ato de pura alquimia. Você já percebeu como as emoções influenciam na respiração?  Como respira uma pessoa afobada ou aflita? O que acontece com a respiração de alguém que levou um susto? Ou quando a pessoa passa por algum tipo de provação? E quando estamos confiantes e receptivos? Respiramos a plenos pulmões! Como é respiração de uma pessoa apaixonada, feliz ou empolgada com algum projeto? É tão abundante e nutritiva que a pessoa passa a ter menos fome e sono. A pessoa parece estar andando nas nuvens…

Parece que vivemos numa atitude de reação perante a vida, enquanto a proposta básica indica ser de interação, cooperação e integração. Respirar é um ato simples, porém nem sempre fácil, que se encontra e se espelha na aventura de ir e vir e também de se relacionar. Não existem duas pessoas que respiram de maneira igual (frequência, volume e forma). A respiração de cada indivíduo é única.

Quanto mais consciência colocamos na respiração mais vividos e capazes nos tornamos, mais cheios de graça, alegria e impulso, nos sentimos, fazemos e acontecemos. Mas a verdade é que respiramos mal, e isso acontece porquê fazemos de maneira inconsciente. Respirar é inerente a vida e a qualidade de uma é diretamente proporcional a outra. Os hábitos corretos da respiração permitem uma grande vitalidade.

Inconscientemente associamos à nossa respiração a ideias de separação, dor e medo, pois foi o que experimentamos quando saímos da barriga de nossa mãe e demos de cara com esse mundo da dualidade. Experimentamos o corte do cordão umbilical e começamos a respirar por conta própria. À medida que a dualidade aparente do mundo vai se sofisticando inconscientemente vamos diminuindo e contendo a respiração como forma de minimizar os sentimentos de separação, dor e medo. Mas por outro lado a respiração pode ser o primeiro passo rumo a autonomia e autodomínio, através da respiração consciente podemos resignificar esses sentimentos para integração, bem estar e coragem. O mínimo que uma pessoa que deseja caminhar pela senda do autoconhecimento tem a fazer é colocar consciência em sua respiração. Felicidade, autonomia, poder pessoal e realização caminham lado a lado e respirar com consciência alarga as trilhas desse caminhar.

A maioria dos adultos usa em média 1/3 da capacidade do sistema respiratório. Se com o tempo perdemos a habilidade de respirar naturalmente (expandindo o tórax e a barriga na inspiração e relaxando todo o corpo na expiração) podemos reaver essa habilidade agora! A respiração é a ponte entre o físico e o não-físico, entre o consciente e o inconsciente, entre o micro e o macro, entre o feminino e o masculino, entre o que se foi e o que pode vir a ser. Quando respiramos com consciência podemos ir para além do tempo e do espaço e provocar saltos quânticos em nosso processo interno.

O ar nos traz a sutil mensagem que somos parte da consciência ilimitada em que a separação e o julgamento não possuem significado. Onde há respiração, há vida, onde há vida, há calor, onde há calor, há expansão, onde há expansão, há conquista, onde há conquista, há realização e descontração. A descontração propicia mais saúde e promove a vida, que por sua vez é sinônimo de respiração.

O ritmo da respiração e o da circulação sanguínea estão interligados e o sistema endócrino caminha tão entrelaçado com a respiração quanto com acorrente sanguínea. Das substancias desnecessárias ao nosso corpo, 20% saem via pele, 7% via urina, 3% via fezes e 70% via respiração. Nosso cérebro consome 25% do armazenamento geral de oxigênio. O aumento da amplitude respiratória promove o aumento do fluxo de sangue bem oxigenado até cérebro e isso pode favorecer o desempenho da gandula pineal. O volume do cérebro aumenta com a expiração e reduz com a inspiração.

Respirar com consciência é voltar a fonte. Inspiração significa insuflação divina, reflete nossa disponibilidade para a vida, nossa determinação e autonomia, nela exercemos nosso lado mais ativo, numa atitude de busca e abertura que renova nossa intima relação com o viver. Na expiração exercitamos nossa entrega sem resistência, quando podemos soltar nossas amarguras e armaduras, sabendo que não há batalha a ser ganha. Ao restituirmos a liberdade ao que inalamos estamos nos libertando de padrões de escassez e controle e confiando na generosidade e abundancia da vida.

A respiração consciente é uma ousada viagem e uma grande iniciação. Está impregnada dos segredos da vida e é ela que todos os seres vivos têm em comum. No ar paira uma força infinitamente maior que tudo que se possa dimensionar. Bem aventurados aqueles que creem sem nunca terem visto e mais bem aventurados ainda, aqueles que veem com os olhos do coração.

Tudo indica que o prana está impregnado no oxigênio. Prana é um nome designado a um princípio universal que é a essência de todo movimento, força ou energia. Existe em todas as formas de matéria e no entanto não é matéria; está no ar e no entanto não é o ar nem seus componentes químicos. É o total de forças e poderes latentes no homem bem como tudo ao seu redor. A esse “algo” foram dados muitos nomes: substancia vital, hálito divino, ki,  chi, força do espirito santo, fogo vivo, principio gerador etc. Quando este algo em nós está escasso nos sentimos fracos, quando em desarmonia nos sentimos doentes e quando ausente morremos.

A sede do prana é o coração. Todavia está relacionado com a mente, através dela com a vontade, e través dela com a alma individual que se relaciona com o Ser supremo. Poder pessoal, ou a capacidade de lidar com a vida nada mais é do que a capacidade de digerir o prana. A forma mais fácil de absorver o prana é pela respiração.  Não é por um acaso que quando nos deslocamos dos centros urbanos para um lugar junto à natureza com ar puro nos sentimos instantaneamente melhores, mais leves e de bem com a vida. Prana é o meio pelo qual a consciência se manifesta e se expressa. É o fluxo da inteligência. Muitos sábios yogues sabem que certas práticas de respiração podem mais rápida e eficientemente recarregar os depósitos de prana. Prana é essência da vida.

É muito importante detectar o quão verdadeiramente importante é a respiração em nossa vida e quão importante é nos desfazermos das couraças de “proteção” para que a chama da vida brilhe em plenitude. A prática da respiração consciente é uma prática para isso e através dela podemos controlar os movimentos do corpo e da respiração conscientemente e, com isso, harmonizar a vida individual com a vida universal.

No oriente há a pratica do pranayama, que significa domínio (yama) do prana. Por meio dela busca-se aperfeiçoar a habilidade de captar e direcionar o prana, abastecendo os chakras com essa substância sagrada. Do mais rico suprimento do prana e do harmônico funcionamento dos chakras depende nossa saúde e nossa disposição para viver. Quando desbloqueados esses vórtices de energia nos dão acesso aos direitos mais básicos: ser, viver, sentir, agir, amar e ser amado, comunicar, ver e saber.

Nas práticas de pranayama acredita-se que a respiração física e a respiração pranica acontecem simultaneamente e qualquer modificação que ocorre em uma simultaneamente afeta a outra. Todo pranayama se baseia nesse postulado. Nessa linha acredita-se que existem dois órgãos fluídicos (nadis) chamados Idá e Pingalá, que fluem da narina esquerda e direita respectivamente. Esfriando e aquecendo o sistema. A cada duas horas a respiração alternadamente predomina em uma das narinas. Ida e Pingalá seguem pelo corpo cruzando os chakras.

Esses nadis indicam o tempo e, quando a respiração flui por esses nadis, o homem se ocupa com as coisas do mundo. No entanto, quando Sushumna opera o homem “morre para as coisas do mundo” e entra em samadhi, pois sushumna dissipa o tempo. Sushumna que se situa ao longo da coluna é o mais importante de todos os nadis. Um verdadeiro yogue se empenha ao máximo para fazer o prana correr por esse nadi e quando isso ocorre o verdadeiro trabalho do yogue se inicia.

Seguindo nesse estudo, Pingalá aspira somente a energia prânica positiva e Ida a energia prânica negativa. Pela prática pranayama a força positiva entra pelo polo positivo e segue o trajeto do conduto Pingalá até o chakra da coroa (Muladhara), quando se junta ao polo negativo Ida, e o inverso acontece através da força negativa.

De onde você acha que surgiram as palavras iluminação, iluminada, reluzente, brilhante, clara, lúcida, radiante como forma de se referir a uma pessoa bastante habilidosa para lidar com a vida? Respirar conscientemente é se abrir para toda a luz que há em nós. Ao respirar compartilhamos com o mundo toda nossa luz e quanto mais o fazemos criamos espaço para a renovação e mais iluminados nos tornamos.

Se pergunte: Quem sou eu para ser brilhante, talentoso e iluminado? Você é o Filho de Deus. Ao fazer papel de pequeno você se aliou com o que você não é, e portanto, vive uma ilusão. Nós nascemos para manifestar a glória de Deus que está dentro de nós. Quando deixamos nossa luz brilhar, inconscientemente damos aos nossos irmãos e irmãs permissão para fazerem o mesmo.

Ancorar o poder pessoal exige definitivamente um alto grau de humildade para incluirmos TUDO o que existe como um reflexo nosso e, simultaneamente, assumimos total responsabilidade por TUDO o que experimentamos. A respiração consciente é fundamental para qualquer obra de transformação. A consciência expande quando efetivamente deixamos fluir nossa respiração de forma consciente, deliberada e com clara intenção de deixar nosso Ser manifestar sua luz pura, radiante e magnetizante.

O propósito maior é reconhecer nossa essência divina, irmos além das aparências, nos libertamos de arcaicos e sabotadores padrões, sintonizando cada vez mais a frequência de nosso Ser com os objetivos mais elevados da alma. Toda alquimia começa com um desejo e se desenrola com clareza de propósito e foco. Os movimentos de uma pessoa devem acontecer em função de uma clara e alinhada intenção e quanto mais nobre essa for, mais prontamente a verdadeira alquimia se manifesta.

A técnica de respiração circular consciente promove uma respiração mais ampla e consciente e estimula a expansão dos chakras, da aura, e do bem-estar como um todo. Por isso vamos respirar fundo e olhar para dentro, não há riqueza mais valiosa do que podemos acessar por esse caminho.

Viver no presente é se transformar da forma mais linda, suave e gratificante possível, em sintonia com a vida em toda sua plenitude e realeza. Somos o Filho de Deus, e provavelmente, ainda não no apoderemos de uma minúscula parte de nossa herança. A chave está na respiração consciente, plena e ritmada, e para faze-la funcionar alinhamos nossa intenção na eternidade desse instante e na imortalidade de nosso Ser. Abrindo-se para o sopro da vida, esta pura alquimia, “tudo o mais será dado por acréscimo”.

Author: Willian Tello

Fundador e dirigente do Instituto Espiritual Xamânico Flor de Lótus

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