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É necessário estar em reclusão para atingirmos a iluminação?

Categories: Reflexões

 

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Acho que todos nós já vivemos uma fase em que queremos fugir do mundo. Quando parece que tudo está desmoronando sobre nós, nossa primeira reação é buscar a saída de emergência mais próxima ou aquela famosa expressão: “para o mundo que eu quero descer”. Por isso, trouxemos a reflexão sobre ser ou não necessário estarmos em reclusão para realizarmos qualquer tipo de estudo ou vivenciar algo espiritual.

À primeira vista, parece fazer muito sentido, pois temos a nítida impressão de que o mundo é o responsável por nos tirar do centro, por nos desvirtuar do caminho. Muitas pessoas afirmam que o homem é um produto do meio e que o nosso ego se desenvolve conforme crescemos. No entanto, seria mesmo assim?

Se fizermos sérias considerações sobre essa questão, reconheceremos que ela não faz sentido. O fato é que não existe nenhum mundo fora de nossas mentes e, dentro dela, estamos sempre sozinhos. Quando tentamos nos afastar ou nos separar do mundo, estamos simplesmente caindo na armadilha de nosso próprio ego de tornar o que acontece do lado de fora real. Isso quer dizer que vemos o problema, seja ele qual for, do lado de fora de nossa mente. E a questão é que, ao fazermos isso, o problema permanece sem solução, pois este nos é alheio.

Quando enxergamos o mundo como fonte de distração e de medo, tornando-se assim a causa de nossos problemas, perdemos a oportunidade de perceber os nossos pensamentos de distração e de medo que nutrimos em nossa própria mente. Ou seja, tudo o que tememos ver do lado de dentro, projetamos no mundo e, desta forma, nos “isentamos” de nossa culpa e nos tornamos vítimas de nossa própria projeção.

Então, quando tentamos mudar o mundo externo para tentar resolver o conflito existente em nosso mundo interno, estamos tentando realizar um truque de mágica. Sim, pois como poderíamos resolver qualquer coisa se agimos em seu efeito e não em sua causa?

Se acreditamos que só podemos trilhar um caminho espiritual a partir do momento em que nos separamos das pessoas ou do mundo, que são, em realidade, a sala de aula de nossas vidas, provavelmente estamos sendo orientados a fazer isso pelo nosso ego. Quando agimos assim, nunca teremos a oportunidade de aprender as nossas lições de perdão, pois inconscientemente separamos a causa de seu efeito e, assim, nos fica impossível reconhecer que tudo teve princípio em nossa mente.

De maneira geral, talvez seja útil pensar que devemos praticar nossos princípios e lições espirituais nas situações de nosso dia a dia conforme as vivenciamos e, nesse sentido, isolar-se do mundo só serviria para que levássemos nossos conflitos internos para “um passeio”, mas, se não estivermos dispostos a encarar o conteúdo de nossa mente, eles continuariam nos atormentando não importando quanto tempo ficamos em reclusão.

Talvez sirva de conforto observar que a vida da maioria das pessoas é difícil, dolorosa, cheia de circunstâncias, relacionamentos e condições corporais que são muito traumáticas. Por isso, seria quase impossível abandonar tudo isso e nos isolarmos a fim de atingir a iluminação. As “distrações do mundo” existem apenas se quisermos ser distraídos e, portanto, elas apenas respondem a um desejo nosso. O que enxergamos no mundo é apenas um retrato externo de uma condição que carregamos em nosso interno. Então, se queremos testemunhas de que o mal existe, o “mundo” responderá de acordo. O mundo, por si só, é neutro. Ele é uma mera testemunha daquilo que consideramos real.

Pense em todos grandes professores espirituais e reflita se eles alcançaram a sabedoria em clausura. Normalmente, essas pessoas viviam uma vida muito longe de ser considerada “santa”, com muitos conflitos internos e em constante desentendimento com as pessoas de sua convivência e, de repente, essas pessoas sentiram necessidade de viver algo melhor, mais pleno. Portanto, essas pessoas servem como uma testemunha e exemplo de como os buscadores espirituais deveriam estar disponíveis para aprenderem em meio às suas vidas normais, diárias.

A verdadeira reclusão e a que faz sentido seria estarmos em quietude, onde buscamos, dentro de nossa própria mente, todos os pensamentos inquietantes que nos impedem de nos conectar com a nossa divindade, que nos impedem de nos lembrarmos de Deus. Esse deveria ser um exame feito constantemente para que identifiquemos a verdadeira causa de toda nossa inquietação e para que possamos tornar a nossa mente mais quieta e tranquila, sem que ela se interponha entre nós e Deus.

Para nos afastarmos verdadeiramente das distrações, seria necessário que, diante de qualquer situação enfrentada, tivéssemos a capacidade de buscar em nossa mente todos os pensamentos inquietantes de nosso ego e conseguíssemos ir além deles para perceber a Presença tranquila e serena que existe dentro de nós mesmos.

A verdadeira reclusão do mundo se dá quando conseguimos sentir a presença de Deus não importando o que esteja acontecendo à nossa volta. Devemos treinar para que a consciência dessa Presença em nossa mente esteja cada vez mais presente, pois Ela nos ensina que podemos escolher outros pensamentos e assim deixamos de projetar os pensamentos indesejados no mundo, na tentativa de nos livrarmos deles.

Não há como escaparmos do que está do lado de dentro de nossa mente. Por isso, ficarmos isolados em uma montanha seria uma maneira de manter o conflito, pois tentamos fugir dele sem nos dar conta de que ele está o tempo todo em nossa mente. Entretanto, o sentimento de paz também é algo que pode estar presente e, da mesma forma, pode ser sempre o que queremos enxergar no mundo.

Podemos estar em um estado de meditação contínua, desde o momento em que nos levantamos até o momento em que vamos dormir e até mesmo durante os nossos sonhos, exercitando nossa capacidade de identificar a presença amorosa de nossa Mente Certa, que constantemente nos ensina que podemos sempre ver a paz ao invés do conflito que escolhemos ver.

 

Author: Willian Tello

Fundador e dirigente do Instituto Espiritual Xamânico Flor de Lótus