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É possível ser feliz em um mundo ilusório?

Categories: Reflexões,Ucem

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Muitas vezes ouvimos falar a respeito do conceito de o mundo ser uma grande ilusão. Diversas vertentes nos dizem que não há um mundo material, que ele é apenas uma alucinação em massa. Mas então qual é a nossa missão aqui? Se tudo isso é um sonho, qual o sentido da vida?

E o que isso quer dizer? É possível negar a realidade do mundo? Nossos cinco sentidos nos dizem o tempo todo que ele é real. Entretanto, se nos aprofundarmos no assunto, perceberemos que os nossos sentidos não captam simplesmente as informações do ambiente, e sim processam o que vemos e sentimos de acordo com um banco de memória e sentimentos que carregamos. Tudo isso indica que o mundo que vemos é realmente um reflexo do que carregamos no interno.

Ao mesmo tempo que parece insano negar a realidade do mundo, tal afirmação parte do princípio de que a única causa é Deus e Ele, em seu perfeito Amor, não poderia ter criado um mundo como esse. Nada do que não é eterno é real e, apesar de estarmos tão identificados com a nossa personalidade individual, ela não poderia conter o Ser que de fato somos. Nossos corpos funcionam como limitantes ilusórios, que não poderiam confinar o Filho de Deus. Ao olharmos para o mundo, mesmo as mais maravilhosas visões da natureza, tudo irá um dia desaparecer e isso não poderia ser o mundo real.

Mas como podemos encontrar alegria em um lugar sem alegria, exceto reconhecendo que não estamos aqui? Podemos enxergar um propósito diferente para estarmos aqui. A única fonte de felicidade seria reconhecer que a nossa vontade é a mesma que a Vontade de Deus e, nesse sentido, a única maneira de sermos felizes é fazendo Sua Vontade. E a Vontade de Deus é que reconhecêssemos a insanidade desse mundo ilusório e percebêssemos que nunca teríamos sido capazes de nos separar dEle. Ainda estamos em casa, sonhando que estamos no mundo. Sua Vontade para Seu Filho é a felicidade perfeita e agora!

Se formos muito honestos com a nossa motivação, perceberemos que a nossa vontade é sempre maximizar o prazer e minimizar a dor e isso só é possível às custas de uma outra pessoa. Mas, para que isso seja verdade, eu preciso provar que eu existo como um ser individual e corpóreo e que todas as outras pessoas são separadas de mim. Assim, a conta fecha, onde um perde para que outro possa ganhar. Desta forma, reforço a minha crença de minha individualidade. Mas seria possível que a única maneira de sermos felizes fosse às custas da infelicidade de uma outra pessoa? E acho que fica muito claro que nenhum de nós se sente completamente realizado ou feliz aqui nesse mundo.

Então, a única maneira de encontrar alegria em um lugar sem alegria é reconhecendo que não estamos ali. Mas isso não significa que devemos negar tudo o que vivemos nesse mundo. Também não negamos que há um mundo lá fora que é um mundo de dor, culpa e medo. Reconhecer que não estamos no mundo significa mudar a interpretação de nossa interação com ele. É perceber que não importa o que acontece fora de nós, isso nunca poderia nos fazer felizes ou tristes. É não deixar que nada o que acontece lá fora tenha efeito sobre mim.

Então, devemos encarar esse mundo como um lugar onde podemos aprender a perdoar as pessoas e a nós mesmos, por entender que nada nem ninguém teria o poder de tirar a nossa paz interna.

Mas devemos tomar muito cuidado com a nossa postura ao não deixar que nada nos afete. Quando estamos tristes ou irritados e, ao invés de reconhecer que algo tirou a nossa paz, reprimimos tais sentimentos, estamos tornando-os ainda mais reais. É necessário que tenhamos o discernimento de reconhecer que, muitas vezes, damos poder a algo externo de interferir com o nosso interno. Entretanto, quando isso acontecer, não devemos simplesmente negar esse fato e sim olhar para isso com gentileza conosco mesmos e apenas observar. Quando reprimimos nossos sentimentos negativos, negamos a nós mesmos a possibilidade de corrigi-los.

Para sermos felizes nesse mundo, devemos reconhecer que nossa única escolha verdadeira está em escolhermos o sistema de pensamento que vamos seguir ao interpretar o que nos acontece. Ao invés de nos lamentar e sofrer os efeitos das coisas que não podemos controlar, podemos perceber que qualquer coisa só terá efeito sobre o meu estado interno se eu assim o permitir. O poder que algo ou alguém tem de interferir em mim está limitado ao poder que eu mesmo dou a ele. Como seria possível compartilharmos algo ruim a não ser que a pessoa com quem queremos compartilhar aceite esse algo?

Mas aí que importância teria tudo o que eu faço aqui? Devemos entender que não há mal nenhum em cedermos aos prazeres do corpo físico. Posso sonhar em ter bens materiais, me tornar famoso, comer saborosas comidas e, no entanto, sei que nada disso tem o poder de me fazer mais ou menos feliz. Ou seja, não há nada de errado em mantermos ou seguirmos nossos sonhos dentro do sonho, desde que eu não faça deles a causa de minha felicidade ou infelicidade. E isso serve para tudo em nossa vida: para os relacionamentos, para nossa vida profissional, para os ídolos que possuímos. Podemos sim aproveitar um dia em companhia de entes queridos admirando uma linda paisagem da natureza, desde que saibamos que posso apreciar tudo aquilo por causa de uma decisão interna em ver a beleza do mundo.

Por outro lado, devemos tomar cuidado também com as fantasias de nosso ego dentro desse mundo, pois ceder a eles pode nos enraizar ainda mais no sonho de culpa e a indulgência com relação a desejos reprimidos como ataques físicos a outras pessoas, roubo e até mesmo suicídio nos mostra que estamos usando a interpretação de nosso ego como guia de nossas atitudes. E, nesse sentido, a culpa gerada através desses atos nos levaria ainda mais longe de nossa felicidade.

Em um nível metafísico, tudo o que nos acontece e tudo o que fazemos aqui é uma ilusão. Entretanto, no nível do sonho, onde acreditamos estar, todos os detalhes da nossa vida fazem muita diferença. E isso, mais do que com relação ao que fazemos, mas com relação a que pensamento estamos seguindo: aquele do ego, que nos diz que minha felicidade é sempre às custas de uma outra pessoa; ou o da mente certa, que me mostra que minha felicidade não pode ser relativa e, não importando o que me acontece aqui, posso perdoar por entender que nada tem o poder de tirar a minha paz interna.

E, ao escolhermos estarmos em paz em situações aparentemente transtornadoras, podemos ensinar às outras pessoas que essa é uma escolha possível para elas também. Isso reforça para nós mesmos e para os que convivem conosco o poder de nossa mente de escolher estar em paz.

Author: Willian Tello

Fundador e dirigente do Instituto Espiritual Xamânico Flor de Lótus