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Ecos da Eternidade

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Parece que a vida de cada um de nós segue uma espécie de roteiro. Nascemos e, conforme crescemos, aprendemos primeiramente as ferramentas físicas necessárias para sobrevivermos em um corpo. No começo, dependemos de um outro adulto para tomar conta de nossas necessidades. Sem eles, não sobreviveríamos nenhum dia. Então, se você está lendo esse texto, é porque algum adulto cuidou de você, de maneira que ele assegurou a sua sobrevivência até que você pudesse fazer isso por você mesmo, mas voltaremos a falar sobre isso mais tarde.

Conforme envelhecemos, o mundo nos parece cada vez mais desafiador. Ao invés de dominarmos uma simples técnica de caminhar sem cair, controlar o lugar e o momento para fazermos nossas necessidades fisiológicas ou dominarmos os nossos movimentos motores, percebemos rapidamente uma maneira de fazer com que as pessoas de nossa convivência façam as nossas vontades. E, dependendo do quanto conseguimos aquilo que queremos das outras pessoas, criamos uma auto avaliação de quem somos. Ou seja, nosso autoconceito está intrinsicamente ligado ao que recebemos do mundo.

Eis que, em um determinado ponto, aprendemos a lidar com as nossas emoções também e, então, seguimos os passos exigidos pelo mundo. Nesse momento, aprendemos uma profissão, desenvolvemos nossa capacidade de nos manter financeiramente e, eventualmente, conhecemos uma pessoa com quem decidimos nos relacionar, talvez formar família e ter filhos. E, depois de cumprir cada uma dessas etapas da vida, “exigidas” pela sociedade, olhamos à nossa volta e para dentro de nós mesmos e parece que ainda assim nos falta algo.

Muitas vezes, é nesse momento em que voltamos à recordação de nossa infância, porque, mesmo quando ela não traz somente memórias alegres, temos a nítida sensação de que era a época mais feliz de nossa vida, quando não nos preocupávamos com nada. Disse que voltaria ao ponto da infância, porque gostaria de trazer a reflexão sobre as pessoas que possibilitaram a nossa sobrevivência até que nos tornássemos adultos.

Todos sabemos de nossa tendência de buscar “culpados” lá fora para o que acontece em nosso interno e, nesse sentido, quando a sensação de vazio descrita acima chega, logo procuramos referências dessa mesma falta em nossa infância. E aí, muitas vezes, pensamos que os culpados por nos sentirmos assim são os nossos pais, ou as pessoas que nos criaram, ou até mesmo aquelas que nos abandonaram, quando (ao menos é assim que pensamos) mais precisávamos. Talvez, caiba nesse momento um instante de gratidão a essas pessoas, pois elas fizeram o melhor que puderam e não nos fizeram nada que não fosse nossa vontade, mesmo que não estejamos até hoje conscientes delas. Em nossa busca de preencher o vazio que sentimos, podemos chegar à conclusão equivocada de que nos falta algo como o amor materno que não recebemos na infância.

Entretanto, vamos pensar um pouco nessa situação. Se a nossa sensação de vazio decorresse realmente de fatos ocorridos em nossa infância e por causa da decisão de outras pessoas, como poderíamos ser felizes agora? E, sejamos um pouco mais honestos, nesse exato momento em que escrevo e em que você lê esse texto, o que está acontecendo em sua vida? Você realmente acha que é vítima de alguma outra pessoa e, por conta disso, se sente vazio? Existe alguém o privando de ser feliz além de sua própria mente?

Sentimo-nos vazios porque, depois de tanto caminhar e aprender a viver nesse mundo, começamos a questionar todos os valores que nos foram ensinados. Olhamos para nós mesmos, para os nossos pais, nossos governantes, nossos familiares, nossos professores, nossos amigos e até mesmo a pessoa a quem chamamos de “amor da vida” e vemos que os seus valores estão longe de serem perfeitos. E, nessa hora, temos uma nítida sensação de saudade. Mas saudade de quê? Saudade de um estado de paz, que não é um lugar, mas que chamamos de nosso lar.

Quando começamos a questionar os valores do mundo, muitas vezes nos sentimos como verdadeiros alienígenas e parece que não pertencemos a esse lugar. E por que nos sentimos dessa forma? Justamente porque nossa intuição está nos dizendo algo que nossa razão parece querer abafar. Temos sim uma memória de nosso Pai, de nossa Casa, de algo que não é desse mundo e nem poderia ser. Nossa memória, mesmo que distante, nos diz que somos grandiosos e dignos de apenas Amor e, por isso, a sensação de vazio; por isso não nos contentamos com menos.

Somos o Filho perdido de Deus, que está sonhando com o exílio e se julga separado de seu Pai e de todo o resto da Criação, mas, se é assim, por que não voltamos simplesmente para casa? E, honestamente, estamos preparados para deixar todo o investimento que fizemos em nosso ser individual, abrir mão de nosso especialismo para sermos “simples” partes do Todo que nos abrange?

Nos referimos à essa memória de casa de várias maneiras, nossa mente certa, que é onde o Espírito Santo está, que é onde a Memória de Deus está, onde a Memória de nossa verdadeira Identidade como Cristo está, onde a Memória do amor está. Nossa memória nos leva de volta à consciência de Quem de fato somos.

O problema é que, quando escolhemos nos identificar com o nosso verdadeiro Ser, o nosso ser individual e separado, no qual investimos todos os dias de nossas “vidas” e que acreditamos ser, não tem mais espaço e isso é amedrontador. Temos medo de literalmente desaparecer! No entanto, isso não acontece dessa forma. Quando estamos nesse lugar, onde percebemos que não somos esse ser especial e único, o que acontece é que nos livramos da culpa, do medo, do pecado, mas nosso corpo ainda irá funcionar da mesma maneira que antes. Porém, estando ciente de nosso Verdadeiro Ser, não somos mais afetados pelo que acontece no passado e não temos inquietação sobre o futuro. Imagine se pudéssemos viver sem ansiedade, sem preocupação! Tudo o que poderíamos sentir seriam a paz e o amor do presente.

Isso tudo não significa que vivamos de uma outra maneira. Continuamos a trabalhar, a comer, a dormir, a conviver socialmente com nossos amigos, a fazer seguro para o carro e ainda nos preparando para o futuro. Entretanto, podemos fazer isso tudo sem ansiedade, sem tensão, sem medo. E, por mais bizarro que isso soe, a falta de sofrimento gera grande ansiedade e medo. Como podemos não sentir medo em um mundo feito de medo?

Quando dizemos que a melhor maneira de viver nesse mundo é sabendo que não estamos aqui não queremos dizer que você ficará alheio ao que acontece ao seu redor e sim que você se torna alheio a todo o julgamento e todo o medo que o seu ego associa ao que acontece no mundo. Então, tudo aquilo que acontece conosco, como por exemplo uma pessoa dizendo ou fazendo algo que não nos agrade, nossos sentidos físicos vão continuar nos transmitindo o que acontece, mas, ao invés de respondermos com a nossa mente egoica, que sempre nos diz que somos vítimas de um ataque, podemos interpretar tudo com a nossa mente certa, nossa memória de lar, que nos diz que tudo é uma expressão do amor ou um pedido de amor. E qual seria a única resposta adequada nesse caso, senão o amor? É importante que entendamos que isso não significa que não fazemos nada de maneira comportamental, mas sim que nosso comportamento será guiado pelo nosso verdadeiro Professor.

Não importa quem somos, onde estamos, com quem estamos, se estamos acordados ou dormindo, todos nós temos uma mente certa. Esse é o Chamado que trouxemos conosco para o sonho – a memória de Quem somos como o Filho de Deus, que nos diz que nunca nos separamos de nossa Fonte. E, para isso, não é necessário que voltemos ao exato momento quando a separação pareceu acontecer para que possamos desfaze-la. Essa memória está tão enterrada que é quase impossível acessá-la. No entanto, devemos simplesmente nos dar conta que, a todo momento, estamos revivendo essa separação, que acontece toda vez em que vemos o nosso relacionamento com qualquer pessoa que justifique a separação.

A boa notícia é que o fato de nossa memória verdadeira estar abafada e não ser ouvida não significa que ela não esteja lá. A verdade simplesmente é e, para que seja, é necessário que deixemos de investir na mentira. Então, tudo o que precisamos fazer é derrubar as barreiras que interpomos entre o nosso ser imaginário e o Amor. Não há nada contra o qual precisamos nos defender e isso vai fazendo cada vez mais sentido conforme vamos nos recordando do Ser Imutável e amado por Deus que realmente somos. E, então, nos damos conta de que não estamos trocando tudo pelo nada e sim o nada por tudo, pois só conseguiremos ser genuinamente felizes reconhecendo nosso verdadeiro Ser.

Author: Willian Tello

Fundador e dirigente do Instituto Espiritual Xamânico Flor de Lótus