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O medo de olhar para dentro

Categories: Reflexões,Ucem

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Quando falamos em espiritualidade, autoconhecimento e consciência, um dos primeiros temas abordados é o ato de olharmos para dentro. No entanto, o que isso significa? É importante entender cada aspecto desse “olhar”. Se o objetivo é olhar para dentro, fica claro que não estamos falando das coisas que nossos olhos físicos conseguem ver, pois sua única função é olhar para tudo o que acontece do lado de fora.

Então, o que seria esse “olhar”? Somos seres espirituais vivendo uma experiência corpórea e não o contrário. E, nesse sentido, o fato de nossos sentidos funcionarem como uma espécie de receptáculo das sensações e movimentos do mundo externo faz com que nos experimentarmos de maneira não corpórea se torne uma tarefa muito difícil. O que desconhecemos é que temos a ilusão de que nossos olhos físicos captam a realidade. Na verdade, o que vemos é apenas uma imagem refletida do que possuímos em nossos “arquivos mentais”. E o que queremos ver? Para onde direcionamos nosso olhar?

A nossa dificuldade com a espiritualidade é que, como não conseguimos acreditar naquilo que não conseguimos ver, criamos as religiões e nossa prática espiritual se torna um ritual, algo que podemos palpar com nossos olhos físicos. Mas, se nossa essência é espírito, poderia a verdadeira mudança ser percebida fisicamente? Quantas vezes estamos em um ambiente onde materialmente nada está acontecendo enquanto, em nosso interno, uma verdadeira revolução toma conta de nossa mente! Seria possível que, para nos conectarmos com o nosso verdadeiro Ser e com Deus, seja necessário que façamos algo físico, algo ritualístico? Nosso corpo e de nossas individualidades não nos reforçam a ilusão de que somos separados de nossos irmãos?

Acreditamos que somos seres autônomos e que estamos separados de nosso Ser real e, o mais importante, estamos separados de Deus. Isso não nos é claro, mas acreditamos que nos separamos de nosso Pai e nos sentimos culpados por termos cometido o maior de todos os pecados. Toda a história de Adão e Eva nos leva a crer que viramos as costas para Deus e que isso nos tornou pecadores. E, por isso, sentimos uma tremenda culpa, que se origina na experiência, mesmo que inconsciente, de que temos pecado.

Quando falamos de culpa, ela está sempre relacionada a coisas específicas que fizemos no passado. No entanto, todas as coisas “ruins” que fizemos e pelas quais nos culpamos representam apenas a superfície da culpa inconsciente que carregamos desde o momento em que chegamos a esse mundo. Além da culpa que conseguimos identificar, temos todas as nossas crenças, experiências e sentimentos negativos que já tivemos sobre nós mesmos. Ela se manifesta em qualquer forma de ódio ou rejeição de si mesmo ou quando nos sentimos incompetentes, fracassados, vazios; ou ainda a tão conhecida sensação de que nos falta algo, ou que precisamos recuperar algo ou que somos incompletos.

O fato é que, por nos sentirmos culpados, acreditamos que seremos punidos por tudo o que acreditamos ter feito e pelo ser horrível que acreditamos ser. E, por acreditarmos que devemos ser punidos por nossos pecados, temos medo. E o medo, independentemente de sua forma ou de sua aparente causa no mundo, é gerado pelo fato de acreditarmos que merecemos a punição pelas coisas que fizemos e até mesmo as que deixamos de fazer.

O que não nos é consciente é que a nossa crença mais profunda no pecado é de que pecamos contra Deus. Por acreditarmos que nos separamos Dele, acreditamos que Deus é o agente punitivo que, em última instância, nos castigará por tudo o que fizemos. E o que isso pode gerar além de medo? Porém, nossa imagem de um Deus punitivo e vingador não tem nada a ver com o que Ele é de fato. A imagem que temos de Deus tem a ver com as nossas projeções de culpa sobre Ele. Nossa crença no pecado fez com que tivéssemos medo e isso fez com que transformássemos Deus em nossas projeções. Ele deixa de ser o Puro Amor para se tornar o Deus do medo, Que sente ódio e deseja punição e vingança. Mas não seria essa a imagem que temos de nós mesmos? Poderia o nosso Criador ser tão mesquinho?

A imagem que criamos de Deus é apenas um reflexo da imagem que temos de nosso próprio ego. No entanto, apesar de estarmos iludidos com relação ao Deus do medo, não poderíamos viver com essa culpa e medo em nossa consciência. Isso nos seria insuportável. Imaginem viver com essa angústia em nossa consciência! E é por isso que todo esse pacote está profundamente escondido em nossa inconsciência. Dentro desse contexto, como consideramos Deus um inimigo temido, acreditamos que não podemos buscar a Sua ajuda. Por isso, recorremos ao nosso ego, afim de que este nos ajude a reduzir a nossa ansiedade e medo.

E o ego sabe que sua existência depende de nossa escolha por ele. Por isso, ele nos instrui a nunca olhar para dentro, por temer que descubramos a essência de nosso verdadeiro Ser, nosso Cristo interno. Se nos reconhecêssemos pelo Que realmente somos, não mais escolheríamos pelo medo e a culpa do sistema de pensamento do ego. Todo o nosso medo de olharmos para dentro é por conta de todas as escolhas equivocadas que fazemos ao longo de nossa vida. Por temermos o que acreditamos ser nossos pecados, não temos coragem de passar por toda essa falsa imagem que criamos de nós mesmos. Mas essa é a única maneira de chegarmos ao nosso verdadeiro Ser, atravessando a ilusão da escuridão que nós mesmos criamos. É preciso atravessar a escuridão para se chegar a luz. No entanto, ao contrário do que imaginamos, isso não é sinônimo de sofrimento. É necessário que olhemos para toda a escuridão que pensamos ser a nossa essência e só assim podemos percebê-la pelo que realmente é, uma mera ilusão.

No entanto, ao nos depararmos com as nossas sombras, qual deveria ser a nossa atitude? A postura mais acertada seria observar e entender que nossas escolhas pelo ego decorrem do medo que temos do Amor. E o mais importante de tudo seria compreender que, tão facilmente como pudemos escolher pelo ego, podemos escolher por amor, pela nossa mente certa. Olhar para dentro é um ato de amor. Olhar para dentro significa receber e atender ao chamado de nosso despertar. Todas as respostas que buscamos estão dentro de nós mesmos. É importante olhar para dentro para que possamos desfazer as ilusões que criamos a nosso próprio respeito. E só assim nos recordaremos de nosso verdadeiro Ser.

Author: Willian Tello

Fundador e dirigente do Instituto Espiritual Xamânico Flor de Lótus