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Sou o único responsável pela maneira como me sinto

Categories: Reflexões

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Quantas vezes, ao nos levantar, estamos dispostos, alegres, sorridentes e, de repente, alguma coisa acontece e pronto, nosso humor muda. Qualquer coisa pode ser o gatilho para tal mudança de humor, mas devemos nos atentar ao fato de que a causa de nosso mal-estar é sempre vista como estando no externo, do lado de fora. Pode ser algo que alguém tenha nos falado, pode ser que tenhamos perdido muito dinheiro, pode ser problema com os filhos, com a família. Enfim, existe uma infinidade de motivos aos quais projetamos a causa de nossa frustração.

Então, como parte de nosso dia a dia, temos que lidar com diversos tipos de sentimentos e acreditamos veementemente que não somos capazes de controla-los. Essa é uma cena conhecida mentalmente: somos vítimas de nossos próprios pensamentos e sentimentos. Somos meros coadjuvantes onde deveríamos ter o papel principal em nosso palco mental. E nem sempre conseguimos deter nossas ações antes que elas se contaminem por pensamentos menos nobres. Mas, se estamos falando de nós mesmos, quem a não ser nossa mente seria capaz de controlar o que sentimos e o que pensamos?

O problema real quando sentimos qualquer tipo de desconforto é que nós não sabemos localizar a sua causa. E, ao invés de tentarmos achar a causa em nossa própria mente, buscamos freneticamente todos os agentes externos que possam servir de bode expiatório para o nosso estado atual. E, nesse sentido, qual a chance real que temos de resolver o problema percebido?

Todas as vezes em que nosso estado emocional é diferente de um estado de paz e plenitude, talvez um exercício útil seria tentar, na medida do possível, antes de qualquer coisa, nos ater ao fato em si. Por exemplo, se eu estava bem e, de repente, alguém me fala algo irritante, devo tentar me concentrar no que foi dito e não dar ouvidos a toda a história adicional que o meu ego conta quando isso acontece. Ao fazer esse exercício de tentar nos ater às palavras exatas que foram ditas, muitas vezes identificamos que elas, por si só, são neutras. O que muda é a interpretação que fazemos delas.

Se alguém nos trata de maneira agressiva ou diz algo que vai contra alguma coisa em que acreditamos, por que nos irritamos? Vamos supor que alguém tenha dito que somos mentirosos. Se eu não acredito nessa afirmação, qual é a consequência real do que foi dito a não ser que eu escolha sofrer os efeitos dessa tentativa de agressão? O que a pessoa disse tem o poder de mudar quem eu sou? Ou será que me irritei pelo fato de que aquela afirmação tenha trazido dúvida com relação ao que eu penso sobre mim mesmo?

É importante flagrar os pensamentos presentes nesses momentos. Quando nos sentimos contrariados, certamente existiu uma voz em nossa mente que nos fez a seguinte pergunta: com quem essa pessoa pensa que está falando? Quem ele/ela pensa que eu sou? E, nesse sentido, o mais acertado seria devolver a pergunta para nós mesmos: quem tem dúvidas a respeito de quem eu sou? Seria a pessoa que proferiu a agressão ou eu mesmo? Porque, se sei que, não importa o que a pessoa faça, ela nunca terá o poder de mudar quem eu sou e nem mesmo o meu estado interno, a não ser que eu a dê o poder de fazer tal coisa, qual o problema real?

Isso quer dizer que não conhecemos a causa de nosso desconforto ou irritação. Podemos até achar que é por causa de algo que alguma pessoa fez ou deixou de fazer, mas a verdade é que existiu um pensamento, originado em nossa própria mente, que desafiou o conceito que temos de nós mesmos.

Essa é uma artimanha muito conhecida do ego: evitar, a qualquer custo, que consigamos olhar para dentro.

Como podemos resolver um problema, se nem ao menos sabemos onde ele está? Nosso ego nos coloca em uma busca sem fim para que tentemos achar soluções para os problemas que nem ao menos existem. E, enquanto fazemos isso, deixamos de aprender a única lição que vai nos ajudar a despertar: a única causa possível de meu sofrimento são os meus próprios pensamentos. E, nesse sentido, a única maneira de sermos felizes é reconhecendo essa verdade e olhar com honestidade para os pensamentos que povoam nossa mente. Isso é olhar para dentro.

O significado de tudo o que nos acontece depende do propósito que damos a uma circunstância. Se eu der o propósito de enxergar o ataque em uma fala de outra pessoa que, por si só, era neutra, não há nada que essa pessoa possa dizer ou fazer que vá me desviar do meu propósito insano. Se quero acreditar que sou diferente dos meus irmãos, vou criar todas as “provas” de que isso é verdade. O mundo externo é um mero reflexo do mundo interno. Acreditamos que existem coisas do lado de fora que podem ter um efeito positivo ou negativo sobre nós, mas a verdade é que nós enxergamos apenas aquilo que queremos ver e, nesse sentido, buscamos constantemente as testemunhas daquilo em que acreditamos.

No final das contas, quando estamos transtornados, é sempre porque acreditamos que somos diferentes das outras pessoas. E, assim, queremos defender o nosso especialismo, exigindo que as pessoas cumpram com nossas expectativas, que julgamos importantes para que possamos manter nosso ser separado e individual intacto. O problema é que isso gera culpa inconsciente, pois, em algum lugar de nossa mente, sabemos que isso não é verdade e a nossa vontade individual diverge de nossa natureza uma com Deus. Por isso, o desejo de defender nossos interesses privados é percebido por nosso ego como um pecado, que, por sua vez, gera culpa.  Ninguém gosta de se sentir culpado e, por isso, apelamos para a projeção, a fim de encontrar um culpado lá fora.

Essa é a lógica do nosso ego, mas o problema é que a projeção nunca vai fazer com que nos livremos da culpa. Mais do que isso, é muito desalentador imaginar que uma outra pessoa pode ser responsável pela maneira como eu me sinto. Se isso for assim, o máximo que podemos fazer é desejar-nos sorte para que encontremos apenas as pessoas que desejem o nosso bem.

A boa notícia é que, se sou o único responsável, me sentir em paz e feliz fica totalmente possível. Uma pergunta que paira é: quero realmente estar em paz e ser feliz? Quero abrir mão de minhas vontades e ideias individuais para me perceber como parte do todo? Estou preparado para ver todas as pessoas que me rodeiam como inocentes e entender que elas não têm nada contra mim? Quero ser o responsável por minha felicidade?

A sugestão com esse texto é para que cada um pense a respeito dessas perguntas quando estiver em um momento de crise, onde a paz foi perturbada. O simples fato de perceber que isso se deve a uma decisão que tomamos de não estar em paz já ajuda muito. E, se é assim, podemos, a qualquer momento, escolher novamente.

Author: Willian Tello

Fundador e dirigente do Instituto Espiritual Xamânico Flor de Lótus